domingo, março 17, 2013

Poema Miúdo

Asfalto me diz mudo, que não estou no alto.
Assim me desnudo, sem sentir o chão.
Atrevo-me pra cima.

Salto.

Voo, com os olhos fechados.
Do eu, que não me era, parto.
Reparto o que não foi me dado.

Sei das noites mal dormidas,
Dos silêncios de partida.
Decorei o nascer e o partir do sol.

Anoiteço-me em janelas.
Embebo o céu com nuvens de algodão.
O asfalto é concreta verdade pavimentada.
O céu, minha certeza anuviada.

Prefiro lá.


(Ebbios e Vick)

domingo, março 10, 2013

Por Aquela Porta


Ela veste margaridas.


Enfeita-se de charme e brinco de penas. Seu sorriso é um perfume — sinto o cheiro dele na minha lembrança. Quando o relógio anuncia a noite vinda, eu sento numa cadeira e a espero entrar pela porta. Se chove, ela entra fechando o guarda-chuva molhado e antes de ajeita-lo corre para meu abraço. Pendura o chapéu e repousa seu cansaço de tanto dia em minha paixão travesseiro. É tão menina essa mulher. Peço que me cuide — me atrapalho fácil de viver. Ela se envergonha dessa minha ousadia e sorri perfume, a coisinha flor. Outro dia eu tentava lhe pintar um retrato. Na escola aprende-se cor quente e cor fria, deviam ensinar também que existem cores doces e salgadas — a dela é doce. O pincel insinua os cachos negros, a curvatura que sai do ombro para findar o pescoço, e que me finda. Não cabe na tela, ela; nem meia paixão minha. O que sinto inteiro só dá para entregar inteiro aos olhos vivos dela. Ela me atravessa — eu travesseiro. Ela entrará por aquela porta, perguntarei como foi seu dia, alguns dizeres, e vestiremos então nosso silêncio. Faremos amor com amor, chapéu e brincos de penas assistirão calados nossa dança. Finjo que é verdade isso tudo, digo a ela e ela ri. Peço novamente que me cuide. Sei que cuidarei bem dela e de sua meninice. Quando na rua, vejo vestido em vitrine caber solto nela. É amor isso, essa presença inda que ausente. Aprendi a me chover por ela — que é flor. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer... Repousa frágil a cabeça em meu colo enquanto ouvimos música. O pincel tenta seu sorriso. Infinito em mim. Nunca lhe disse, mas quando a vejo de cachecol, penso que eles foram feitos para ela. Ela se gabaria dessas verdades, então só vou soltando aos pedacinhos. Digo primeiro com as mãos, depois com os olhos, depois com o sorriso, só então a boca fala — se fala. Fico olhando para os sapatos que ela deixa sempre nalgum canto da casa. Descalça, alça voo. Os sapatinhos vazios dela, o chapéu vazio dela, os casacos, eu. Quanta falta e fome. Sinto de longe, ela entrará por aquela porta e então será tudo verdade.


Ela veste margaridas.


Eu a visto. 

quinta-feira, março 07, 2013

Janela Aberta


Era uma vez
um pescoço
e uma boca.
O pescoço era dela, por isso quase arrepio.
A boca dele, quase mordida.

Ela queria dormir,
ele, acorda-la.
mas acorda-la de sonho.
Haviam as mãos dele.
Passeavam no corpo dela — paisagem.
Como bicicleta no parque.
Ela em silêncio, dizia:
— Sou flor, toma o meu cheiro!
Ambos se noitavam.
Eram juntos no quarto.
O piso só tinha pés da cama.
pantufas dela,
e o lençol branco caído.
A boca dela, gemido.