quinta-feira, abril 28, 2011

Dança do ventre

O rapaz se sentou em um tapete extendido no chão. Era vermelho, como as paredes, o calor do sol lá fora e as bochechas coradas de timidez do rapaz. Um som percusivo se projetou no ar, quando o jovem avistou surgir no vermelho uma silhueta. As curvas da dançarina serpenteavam pela sala e por seus desejos. Estava hipnotizado. Havia algo naquele olhar. O corpo dela sempre um convite, o rosto sempre um mistério.

quinta-feira, abril 21, 2011

A Fonte

O menino foi até a fonte, tapou os olhos com a mão, empunhando na outra uma pequena moeda. A moeda cintilou no ar, enquanto o menino exclamava para si em pensamento o nome dela. Mergulhou na água o seu desejo, para ficar ali no fundo da fonte junto de outras tantas moedas que noutro tempo também cintilaram.

domingo, abril 10, 2011

ABC

— O abecedário é infinito, como os números?
— Não. Vai só até o Z.
— ...
— Mas se você juntar as letras, forma palavras.
— Aí sim fica infinito, né? A gente pode inventar palavras.

segunda-feira, abril 04, 2011

...

É como se eu houvesse engolido um pedaço de vazio. Sinto-o dentro agora: o nada. Aprendi, mergulhando nos acasos, que não posso guiar as direções. Que o mais sensato na queda é não enrijecer o corpo, como o piloto de Moto GP a cortar o vento até subitamente cair, girar feito boneco de pano e se levantar.      
Cá dentro engoli o eco do que não foi. É tão surpreendente saber que vou me levantar, e que a tentativa de me proteger é que machuca mais. Sensato é ser como boneco de pano. Cair leve. Ninguém me avisou que viver doía. Teimoso nasci. Todos os dias morro pra então nascer de novo. Sempre eco do eu que abandonei. É espantoso tentar compreender. Tentar atribuir sentido. É enrijecer-se. Há as coisas que nunca serão ditas. As palavras que dançam perdidas. Bailarinas da verdade e do silêncio.  

sexta-feira, abril 01, 2011