Quarta-feira, Julho 27, 2011

Mensagem do Deserto

Fotografia de hoy.joy

Por Jocê Rodrigues

O deserto é o lugar em que acredito que podemos sentir de modo mais significativo a necessidade do contato, do relacionar-se com outro que seja igual a nós mesmos. Não iguais em status social, em conquistas ou em misérias, mas iguais na essência. Pois se a necessidade fosse apenas da relação com outro ser, seria necessário somente olharmos para os grãos de areia; para as formações rochosas ou para os escorpiões e outros animais que por ali passassem, pois todos são, assim como nós, resultados de acidentes biológicos que vem ocorrendo já há quatro bilhões e meio de anos.

No deserto de cada ser é onde também são encontrados os Oasis que podem reconfortar as angústias, seja esse conforto o encontro com o sagrado ou apenas a descoberta de si mesmo, dormindo sob uma palmeira numa madrugada de lua alta. Se o homem que dorme entre as palmeiras puder olhar para o céu, da maneira mais aguçada possível, e reparar a seu redor com a mesma atenção, perceberá que o céu está expandindo-se assim como ele mesmo, e na natureza encontrará o ritmo dessa expansão. Perceberá a ligação do vento que sopra gelado durante a noite e ardente durante o dia, como seu próprio respirar: frio ao entrar e ardente ao sair, além de atentar para o mesmo ritmo em todos os seus iguais.

Como já demonstrou Jean-Yves Leloup em um dos seus textos: "Algumas pessoas vivem esta experiência do deserto no próprio corpo; quer isto se chame envelhecer, adoecer ou sofrer as consequências de um acidente. Esse deserto às vezes demora muito a ser atravessado." Demonstrando que o deserto não é um destino, mas apenas uma passagem, ou como diriam nossos psicólogos ou amigos com carteirinhas de psicólogos júniores: uma fase.

Normalmente ao sairmos desses desertos íntimos, quando conseguimos atravessá-los, saímos de lá ressignificados, com novos sentidos e novas propostas, pois lá acabamos descobrindo que não somos estáticos; que somos dinâmicos e que estamos dentro do ritmo de uma música ou dança mais velha do que a nossa existência como a conhecemos.

Aqueles que acreditam que saíram de lá sem tais ressignificações, podem nem sequer ter atravessado seu deserto, mas sim vivenciado uma miragem, tornando assim incompleta a sua passagem.

O fato é que quando estamos queimando sob o sol, ou esmagados sob o peso do que julgamos nossos erros, sentimos falta do outro; sentimos falta do toque; do olhar, de todos esses gestos mínimos mas que são carregados de significados e que esquecemos facilmente em tempos tão rápidos, onde não temos a oportunidade de assimilar as mudanças que se dão em um ritmo cada vez mais desumano. Nessa hora a artificialidade não nos pode confortar, pois sentimos falta de água, de essência. Nessa hora percebemos que nos afastamos do outro por pensarmos não haver tempo para a conversa, para o diálogo, para beber da essência de si mesmo no outro; de nos reconhecermos como iguais, preferindo um contato subversivo e plástico, que nos distancia do outro e por isso mesmo nos distancia de nós mesmos.

Eu apenas aguardo o dia em que todos tomarão consciência de que relacionar-se com o outro é encontrar consigo mesmo, e que quanto mais real for esse contato, mais no conheceremos como seres comuns, iguais (embora também como opostos complementares), como poeira das estrelas, para assim podermos cuidar da nossa realidade, da nossa casa comum e cuidar também do outro.

Utópico? Talvez, mas quantas descobertas já foram feitas apenas seguindo estrelas?

Relacionar-se é uma arte; é um ato vital, físico, mas é também uma arte delicada e que necessita harmonia. Uma harmonia que está presente em todo o universo e que começa internamente.

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